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29 de setembro de 2013

MEDO BOBO


Quando penso que tudo acabou
você vem
e sem imaginar o teor do ciúme
que comumente me assalta
diz que me ama
me abraça com saudade
afugenta minha insegurança
e eu que já não sou criança
fico atônita
exultante
e seja lá como for
quase morro de tanto amor!


Shirley Brunelli Crestana

22 de setembro de 2013

VAIS GOSTAR


Posto-me ao relento após o banho
a brisa seca-me a pele e os cabelos
fixo o céu ostensivamente azul
nenhum vestígio de nuvem
nada.
O sol  semeia sonhos nos canteiros
o vento diz bobagens às folhas dos coqueiros
os passarinhos riscam sem dó a paisagem...
Aguço os sentidos físicos
inspiro o fluido vital da manhã
  sensação de plenitude no peito
forte  lembrança...
Meu querido
que saudade
chega logo
vem depressa por favor
tenho uma coisa para te mostrar
está sobre a mesa da sala de jantar...


Shirley Brunelli Crestana

15 de setembro de 2013

PARECE UTOPIA


Quisera ser pura em essência
estar no plano psíquico
entre o céu e a terra
tendo impressões intuitivas
ao perscrutar os mistérios universais.
Assim estaria mais perto
do limiar das grandes mudanças
e mais distante deste mundo de ilusão
onde através de uma vivência desnaturada
o homem continua estático
em relação à evolução do seu espírito.
Trilhando longo e árduo caminho
sou ainda diligente neófito
estagiando nesta dimensão...
Perdida em metafísicas considerações
relaxo
medito
e de repente
pressinto estranho odor
não sei se de incenso
ou de resignação...


Shirley Brunelli Crestana

8 de setembro de 2013

QUANDO VOCÊ CHEGAR


Horas de espera
amaciam meus lábios
e alimentam
o poder admirável da imaginação.
Mansamente garimpo ideias e estrelas
com dedos ágeis uno vocábulos e nuvens
 amarro metáforas com os raios da lua
como se junta pedras preciosas
na criação de formoso colar...
Aprendiz de poeta
tento elaborar um poema envolvente
de luz e de magia
para tornar a noite mais bela
quando você chegar...


Shirley Brunelli Crestana

2 de setembro de 2013

SINAIS


Meus olhos cansados
colecionam asas e madrugadas
quando o canto de uma rolinha
parece bicar a semente da manhã.
O vidro da janela
separa-me do mundo
mas
para deleite da alma
tenho a paisagem verde do quintal...
Ousadamente amanhece
enquanto o silêncio da noite agoniza
nas roupas esquecidas no varal...


Shirley Brunelli Crestana

25 de agosto de 2013

MORADA DO SILÊNCIO


O silêncio que meus olhos não vêem
mora nos cantos desta casa
gosto dele
nos falamos em voz alta...
Outros seres aqui residem
as pombas que barulham nas calhas
e me acham uma pedra vazia e fria
não me amam como me amava o meu cãozinho.
Porque subo na escada
destruo seus ovos e seus sonhos
e elas
 ignoram como isso dói no fundo de mim mesma.
Eu gostaria 
que o silêncio fosse um pássaro
e as pombas fossem anjos
em um mundo mágico e fugaz...
Assim
eu estaria entre asas
em meio aos risos
inebriada de paz...

Obs.- As pombas transmitem doenças, 
danificam as calhas e reproduzem-se rapidamente.

Shirley Brunelli Crestana

18 de agosto de 2013

QUERO TE FALAR


Amor
quero te falar sem códigos
sem símbolos ou sinais cabalísticos.
Quero te falar dos anseios
que me assaltam nas horas insones
e me fazem jogar âncoras
no oceano silencioso dos teus olhos.
Coisa estranha essa de sentir tanta saudade
não mais ser livre
e ficar presa no universo de tua pele.
Amor
hoje posso morrer e virar pó
mas
seja como for
em todos os tempos
direi que te amo
porque a vida
não é uma só.


Shirley Brunelli Crestana

11 de agosto de 2013

PROVOCAÇÃO


Esse chuvisco arrastado
nocauteando numa nota só
as tímidas telhas do meu quarto
marca o compasso de um transe crescente
que me arrebata de forma gradativa
para além da matéria
e me desafia a ficar desnuda
nesta noite solitária.
Maliciosa
atrevida
arrojada
 sem plateia
danço e rio
 diante dos sonhos espantalhos
estrategicamente camuflados
nas cores da colcha de retalhos...


Shirley Brunelli Crestana

4 de agosto de 2013

OLHAR DE ABISMO


Meu  espírito
desliza devagar como um cisne
nas cores serenas
da luz macia do crepúsculo.
A tarde toma cicuta e morre lentamente
diante do meu olhar de abismo.
Minha boca muda
rasga a rústica veste do destino
enquanto as primeiras e inquietas estrelas
mostrando decotes iluminados
instalam-se no céu da noite.
Dói muito carregar nas costas
o pesado e velho tempo
sem perspectiva e sem chão...
Estou farta 
de mentiras
de vinho
e de solidão...


Shirley Brunelli Crestana

28 de julho de 2013

PRESSA DAS HORAS


Costuro o início do dia com pontos de vista
copiados das tramas e dos dramas da vida
e sinto-me insegura quando surgem os nós.
Uso o voo ilimitado da imaginação
corro para todos os lados
penso em você
pego e não leio o jornal
dou telefonemas
acesso a internet
coloco crédito no celular
penso em você
decido o roteiro das próximas horas
enquanto a manhã apressada vai embora.
O tempo
esse equívoco da concepção humana
me faz desejar um momento ocioso
para pentear os cabelos
 desenhar um arco-iris
e sonhar varanda com rede azul...
Parece que os minutos enlouqueceram
pela mente passam bandos
de pensamentos sem freios
e ansiosa 
ainda de roupão
quase desfaleço 
de fome
e de ingratidão...


Shirley Brunelli Crestana

21 de julho de 2013

SEMPRE A MESMA COISA


A luz vinda do entardecer
desperta os mais sublimes sentimentos
mas
também agita deuses e demônios ocultos na mente.
O silêncio malicioso
à espreita das estrelas ingênuas
avoluma a solidão reinante.
Estou sozinha
quero paz
porém
a noite chega zangada
impertinente
pelos cantos murmurando
 invade-me o coração e reclama de tudo
até da torneira pingando...


Shirley Brunelli Crestana

14 de julho de 2013

PACIÊNCIA


Quando me ligas e demoras a chegar
 me enganas com tuas artimanhas
me expulsas do templo dos teus pensamentos
 me tapas a boca com um silêncio de aço...
Tentas ainda
com as labaredas de tua voz
desviar minha atenção com ásperas palavras.
Mas
como não me agradam situações de conflito
mesmo engasgada de perplexidade
sabiamente uso o potencial de minhas forças mentais
e paciente te espero
pois
sempre voltas
...e do jeitinho que eu quero!


Shirley Brunelli Crestana

7 de julho de 2013

GESTOS


Como pássaro desenhado pela alvorada
a esperança chega logo de manhã
 com gestos suaves e orvalhados
pousando silenciosamente
na infinita plenitude do tempo.
Em cena ritualística
como quem conhece as leis da natureza
recito mantras
e bebo emoções  na concha das mãos.
 Com reverência
inspiro profunda e lentamente
exalando vibrações de amor
a todos os seres viventes.
Depois
inteiramente harmonizada
plena de gratidão
sem pedir ou esperar
  alcanço a paz almejada...


Shirley Brunelli Crestana

30 de junho de 2013

TEU PARADEIRO


Procuro-te nas horas embebidas de saudade
nas sombras desenhadas pela lua cheia
na evidente palidez do vento
com cartazes pendurados nas minhas incertezas.
Procuro-te com a força dos desejos
e com a nudez desta agonia.
Nesta noite estilhaçada
estarei insone nas mãos do tempo
e machucada atravessarei tua ausência.
Marionete das horas impiedosas
seca-me a garganta quando um grito em chamas
equilibra-se no fio cortante dos meus medos.
Tresloucada
procuro-te
nos sons que passam
e nas bocas que se calam...


Shirley Brunelli Crestana

22 de junho de 2013

POR QUE NÃO?


Os poetas moram nos jardins do céu
em alamedas amarelas de girassóis
em casas feitas com tijolos de ternura
argamassa de serenidade nas paredes
onde o vento é colorido e melodioso
as águas brotam da imaginação
e as flores se iluminam quando o sol se apaga.
Os poetas jogam dados com as rimas
e fazem versos às crianças itinerantes
que chegam
cantam
contemplam e partem
sem deixar laços ou raízes.
Lá não há sombras
nem pedras ou cinzas
nem mesmo dores.
Quando a noite chega
os poetas quase etéreos
 confraternizam-se ao luar
alimentam-se do magnetismo atmosférico
porém
às vezes
alguns bebem muito nas entrelinhas
e depois importunam as estrelas...


Shirley Brunelli Crestana

16 de junho de 2013

SEU NOME


Encontro seu nome
em meio aos papéis velhos
no fundo de uma gaveta emperrada...
Surpresa
olho ao redor
tudo igual
a janela
o vento morno
o gato sonolento
a rosa desabrochada...
O coração bate forte
e o passado escancara
  indefiníveis lembranças
  imensuráveis vazios
confusos semblantes...
A saia pregueada
do uniforme azul e branco
a rua do colégio
 os rapazes da Faculdade
postados na esquina...
No regaço da memória
destaca-se uma imagem
um rosto
seu nome...
Afinal
por onde andará você?...


Shirley Brunelli Crestana

8 de junho de 2013

TODOS SE ENGANAM


Debruço-me na sonolência da janela
e invejo as estrelas que se banham
na lagoa escura do firmamento.
Enquanto bordo pedaços de tempo
espeta-me a pele a saudade do teu olhar...
Tenho um bisturi sempre à mão
para extirpar as emoções indesejadas
e engana-se quem pensa
que tenho empatia com a dor.
Sou feita de matéria
também de alma
e podem até dizer
que tenho a cabeça oca
mas
sei muito bem como entornar
a taça de vinho em tua boca...


Shirley Brunelli Crestana

2 de junho de 2013

INQUIETAÇÃO



Dispo a máscara
e  posto-me à margem de mim mesma
como se espiasse o fundo de um poço.
Bom seria
apagar as fraquezas dessa trajetória
afastar os medos
gargalhar ante a dor 
para depois
morrer em segredo
a tudo alheia
e como último desejo
queimar a página envelhecida
onde guardo esta poesia feia...

Shirley Brunelli Crestana

27 de maio de 2013

DECADÊNCIA


Aguço a visão periférica
varro com o olhar a tua rua
peço ajuda aos poderes divinos
e ainda assim não te vejo.
Desconsolada e vazia
acomodo a tralha mental
nos ombros saturados de espera.
Sem rumo piso todas as loucuras
e lascas de ressentimento
agridem sem dó o meu reverso.
Ah!...Eu que amo tanto os animais
hoje perambulo feito cachorro sem dono
revirando o lixo do meu universo...


Shirley Brunelli Crestana

20 de maio de 2013

CÉU DA BOCA


Essas nuvens cheias de graça
inflam a minha serenidade
e a euforia volátil do vento
acorda os meus desejos.
O espírito que em mim reside
é feito de luz e de eternidade
e sabe como transmutar
a escura emoção que
às vezes
me invade.
Dizem que meu olhar é tristonho
porém
não importam as aparências
se por dentro eu canto
sou mansa
e por te amar como louca
sinto a lua
que dança e flutua
no céu de minha boca.


Shirley Brunelli Crestana

13 de maio de 2013

DIA DE BAILE


Quem ousa dizer 
que poeta não tem problemas?...
Amanheci à procura de véus
para encobrir as mazelas
pensei em fazer picadinho
da ansiedade que sufoca
quis fugir
da impaciência que se avoluma
perdi as asas
perdi as luzes
fissura sem nome navega no sangue...
Nesta sexta-feira
quero uma bruxa
que faça a tal poção milagrosa
ou uma velhinha bondosa
que benza meus quebrantos...
Não
não vou ao baile hoje
não quero dançar
não me liga Jacó
estou me achando feia
prefiro perder o forró.


Shirley Brunelli Crestana

6 de maio de 2013

RUAS DE DOMINGO



Cansada de rodar pelo marasmo das ruas
não sei porquê piso forte no acelerador
se ninguém me espera em casa.
Vou da superfície ao fundo da alma
sem coragem de encarar
os goles amargos de tua ausência.
Preciso me divorciar do silêncio
pintado nas paredes da vida
quero outra vez me afundar no teu sorriso
me emaranhar nas tramas da tarde que finda.
As horas passam
procuro alívio
meu coração choroso e confuso
se aninha nos braços provisórios da lua...


Shirley Brunelli Crestana


29 de abril de 2013

ALMOÇO SOLITÁRIO



O cheiro do café recém coado
esgueira-se pelas dobras da manhã
de leve um beijo você sai apressado
fica um vazio comprido e nítido
o pó sobre os móveis me acena
o tempo atropela as horas de sol
e passa corroendo minha espera.
Tempero pedaços de saudade
o olhar ansioso atravessa
um milhão de vezes o portão
foge de mim a santa paciência
meio-dia você telefona não vem
sozinha vou me dar mal
comida sem graça
totalmente sem sal...

Shirley Brunelli Crestana

23 de abril de 2013

VIGILÂNCIA



Orar aos deuses
acenar a São Jorge preso na lua
emprestar os anéis de Saturno
escovar os cabelos
pintar a boca
ir bonita pra balada
sem medo de atravessar a rua...
De que adianta isso tudo
se escondo que são negros os teus olhos
e jamais posso dizer que sou tua?

Shirley Brunelli Crestana 

16 de abril de 2013

INTRIGA DO VENTO



O vento regressa do outro lado da cidade
agitado dobra a esquina
e diz tolices que não desejo ouvir.
Chega com o peito estufado de horas inúteis
vasculha o meu espírito
arranha minhas feridas
e me deixa triste como noite sem lua...
Meu bem
o vento anda dizendo por aí afora
que o mesmo silêncio que te trouxe
vai um dia te levar embora...


Shirley Brunelli Crestana