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27 de fevereiro de 2016

VONTADE DE SER


Sou poeira dos tempos
aprendiz de longos milênios
exilada de outra dimensão
comendo o pão de cada dia
amassado a duras penas
 e servido no bandejão da vida...
Às vezes
o efeito de minhas escolhas
eu gostaria de eliminar
 e ser apenas a impassível lua
para estar no foco do teu olhar...


Shirley Brunelli Crestana

20 de fevereiro de 2016

ALEGRIA, ALEGRIA


Saio de casa saracoteando
de vestido enfeitado
com detalhes mil.
Quero sair do meu pequeno mundo 
fugir à força bruta do bom-senso
desvendar o avesso do vento
 sorver o néctar de doce melodia
e na taça da tarde ver os amigos...
Alegre e sorridente
continuo minha andança
saçaricando em direção ao arrebol
 com o meu vestido novo
    cheio de babados de sol...


Shirley Brunelli Crestana

13 de fevereiro de 2016

NO MEIO DO NADA


Dia pacato
com gosto de vento insano
de chuva anunciada
de gente esperando um acontecimento
para ter o que falar...
As horas tocam flauta
para espantar as moscas vadias
desta tarde cinzenta...
Eu aqui sozinha
sem horizonte
querendo muito
ser aroma de alfazema
e embarcar numa onda vibratória
para chegar rapidamente até você...


Shirley Brunelli Crestana

6 de fevereiro de 2016

ASPIRAÇÃO


Cubro-me
com o silêncio das paredes
e enquanto a noite
 caminha lenta
vejo a lua
 quase nua
acariciar
com sua meiguice
  sentimentos estranhos
 albergados
nas folhas adormecidas.
Sem interesse
sinto as coisas inanimadas
provisórias
sem valor algum...
Influenciada pelo luar
 antes que as horas
 tragam a madrugada
olho outra vez  o céu
escrevo mais um verso
tentando compreender
humildemente
 as leis infinitas
 e imutáveis do universo...


Shirley Brunelli Crestana

30 de janeiro de 2016

APATIA


Não me importo
se a chuva molha a roupa no varal
se a erva daninha invade o jardim
se o outono enche
  de folhas amarelas o meu coração...
Não me importo
se todas as abelhas usam
a mesma escala matemática
para construir os seus favos
ou como o besouro voa
sendo ele  totalmente antiaéreo...
Não quero saber
se meus poemas tem rima
 se as estrelas fazem amor ao ar livre
se tenho calos nas mãos
ou se a garganta arde de solidão...
Que importância tem isso
no desenrolar dos meus dias?...
Não quero saber
estou cansada
fujo de tudo
aperto um botão
desligo a chave
 e pronto!


Shirley Brunelli Crestana

16 de janeiro de 2016

AMANHECE


É domingo
amanhece
volto do mundo subjetivo
para o cenário da vida física
e adoro ficar assim
nessa espreguiçadeira
com as pernas esticadas
quieta como uma pedra
ouvindo apenas
as manhas da manhã.
Entre um bocejo e outro
percebo um passarinho carente
a me olhar de esguelha
implorando
 para se alojar dentro de mim...


Shirley Brunelli Crestana

3 de janeiro de 2016

APELO


Poetas mortos
venham intuir-me
desejo escrever um poema
magneticamente leve
feito estrela nômade
que desvende em detalhes inéditos
o significado do amor.
Um poema insólito
que revele o idioma das flores e do vento
e emane a fragrância do mel e da ternura
só um poema
apenas um...
Que não seja como este
sem sal e sem pimenta
sem mérito algum...


Shirley Brunelli Crestana

12 de dezembro de 2015

INICIAÇÃO


Um influxo
 de harmoniosas vibrações
toma conta do meu Ser
e convido-te
 irmão de jornada
a me seguir
no ritual de iniciação
 que se faz necessário
neste mundo hostil e contraditório.
Incenso velas aromas cores
tudo preparado
para dissipar as trevas
e acionar a Luz Maior.
Aproxima-te de mim
neófito que sou
aguardo-te no umbral
de novas mudanças
de nova caminhada.
Que o Amor se infunda em nós
envolva nossas auras
e nos una 
nesse tempo de Paz!


FELIZ NATAL

Shirley Brunelli Crestana

5 de dezembro de 2015

MAIS UM DIA


A manhã chega sonolenta
e inclina a cabeça
no ombro do silêncio.
O solfejo dos passarinhos
em compasso binário
acaricia as horas
que cheias de ternura
hospedam a luz do sol.
Eu
 aqui sozinha
construo alicerces
 no meu mundo interior
e escrevo esses versos
para não me envenenar de preguiça.


Shirley Brunelli Crestana

28 de novembro de 2015

Voo noturno


A luz etérea do crepúsculo
sobe-me à cabeça
recrio um oceano de imagens
despertando vultos e versos
no mundo dos meus sonhos.
Serenas as horas passam
célere o céu escurece
e  como seres
predestinados a evoluir
depuremos a matéria
busquemos paz e liberdade
vem
sou tua
vamos morar
na esplêndida luz da lua.


Shirley Brunelli Crestana

21 de novembro de 2015

POR AMOR


Por você
aprendo a tocar a Quinta Sinfonia
viajo à velocidade da luz
e trago-lhe uma estrela
subo e desço mil vezes
a Escada de Jacó...
Por você
transformo-me numa fada
ou na Mulher Maravilha
e num ato supremo
 prendo o seu amor
para sempre
com cordas de luz...


Shirley Brunelli Crestana

14 de novembro de 2015

NADA SOU


Os caminhos são incertos
os dias imaturos
o tempo não existe.
Como fantoche
comandado pelo ego
caminho com passos inseguros
pelas areias movediças da vida.
Eu queria entender
o movimento instintivo dos átomos
a estrutura das estrelas
o metabolismo do Universo.
Preciso alcançar o Nirvana
mas
sem você
não tenho paz
nada sei
nada sou
nada posso.



Shirley Brunelli Crestana

7 de novembro de 2015

VERNIZ


Você me olha
e não sabe que sou
explícita mentira
mistura de conceitos
escória da verdadeira essência.
Sou guerreira
perdedora de muitas lutas
pecadora de muitas vidas.
Vivo de ângulos e intenções
momentos
flashes
vontade de ser
de cruzar todas as pontes
de ultrapassar todas as linhas.
Algum dia
meu amor
vou lhe dizer que você se ilude
quando me olha e pensa que me vê...


Shirley Brunelli Crestana

31 de outubro de 2015

DESABAFO


Viajei pelos espaços siderais
perambulei
 em várias dimensões de espaço tempo
percorri milhares de estrelas
planetas e satélites
tentei desenvolver atributos divinos
mas
ainda não consegui apagar os pecados
que me impedem de ter
 a ventura de te encontrar...


Shirley Brunelli Crestana

24 de outubro de 2015

MINÚCIAS


É noite
olho o céu
estou lunar
meditativa
falo com os astros
absorvo as sutis vibrações do universo
sinto uma energia balsamizante...
Em meio ao trabalho mental
flutuo levemente
como nuvem de algodão
e porque você vai chegar
solto os cabelos
pinto os lábios
faço-me bela
até esqueço que passei
um dia pleno de monotonia
quadriculado pela grade da janela.


Shirley Brunelli Crestana

17 de outubro de 2015

APENAS ISSO


Retalhos de sombras e de espumas
cicatrizes das lembranças...
Finco os olhos na vida
num dia incerto e insano
e vejo que sou
 apenas um barco
num mar violento
congelado de silêncio...


Shirley Brunelli Crestana

10 de outubro de 2015

BOM SERIA


Eu queria sentir tua voz macia
nos meus ouvidos enferrujados de solidão.
Nesse outubro calorento e emoldurado
pelo canto vigoroso e linear das cigarras
vejo-me atada ao chão
dessa vida primária e rudimentar...
Meu amor
sem tua presença
vagueio nas mesmices ilusórias
desse mundo físico transitório.
Eu queria...
Ah! Como eu queria
alcançar a paz profunda
para poder plasmar do universo
toda beleza
e toda poesia.


Shirley Brunelli Crestana

3 de outubro de 2015

SE FOSSE VERDADE


Eu gostaria de ser um vagalume
para piscar estrelas na escuridão
ou uma pedra com cara de chuva
para ficar fincada no chão.
O que eu queria mesmo
era ser o vento que passa
não sei o que tem dentro
nele ninguém sobe
dele ninguém desce.
Um dia dei um tiro no vento
quando se engraçou com a minha saia
e desafiou os meus cabelos...
Ah! A noite passada
para não perder a hora
dormi
com a janela aberta de bumbum pra lua.
Eu não. A janela.
Quando chegou o alvorecer
a manhã vestida de seda
fez cócegas no meu nariz
com um fiozinho de sol.
Acordei devagar como uma nuvem
tudo parecia verdade...
Hoje quero estar
 predominantemente lúcida e solidária
para poder entender
o princípio de relatividade de Einstein
e todas as desventuras da humanidade...



Shirley Brunelli Crestana

26 de setembro de 2015

SIMPLESMENTE


Apática
paro no meio da tarde
enxugando 
com pensamentos desconexos
os poros suados do tempo.
Um menino volta de onde não foi
e mulheres passam carregando
suas sacolas e seus pesares.
Na esquina
um guarda de trânsito se esmera
para no fim do mês garantir o pão
e mais uma vez o semáforo abre...
Para onde vão tantos carros?...
Um sabiá canta
uma folha cai
eu olho...




Shirley Brunelli Crestana

19 de setembro de 2015

SEM QUERER


 Corto com estilete
o mormaço sem graça
desse dia áspero
e seus pedaços
 rodopiam como ciscos
no insensível asfalto.
Inquieta estou
e para te esquecer
invento uma trincheira
no corpo breve da tarde
 mas tua lembrança
 me atira num futuro escuro
 de absurdos e de dúvidas...
  


Shirley Brunelli Crestana

12 de setembro de 2015

AQUELE DIA


Vesti o meu colar
feito do canto dos bentevis
e de contentamento
rasurei o silêncio
com risos e pétalas
quando você chegou de manhã
colocando aromas orvalhados
no meu inexplicável abandono...


Shirley Brunelli Crestana

5 de setembro de 2015

MÊS DE AGOSTO


Moro
 numa casa de ausências
onde invento trilhas
desenho barcos
e roendo as horas
tento uma saída.
Meu olhar paira 
no umbral das esquinas
onde revejo
antigos fantasmas.
Depois entro em mim mesma
calo a fome da alma
e tranco as portas da casa
com toda a força 
dos meus punhos em brasa...


Shirley Brunelli Crestana

29 de agosto de 2015

LIMITES


Alinhavo lembranças
nos véus do tempo
e penduro-as
numa parede imaginária
num pedaço do meu viver.
Alavanco a tarde
com o azul do céu
e numa caixa de papelão
guardo o canto dos pássaros.
Minha alma diverte-se
ao dar nós
na linha do horizonte
mas
 não tem jeito
sinto a vida efêmera
 tudo é nada sem você...


Shirley Brunelli Crestana

22 de agosto de 2015

RODEIO


Na fronteira da vida
um portal sinistro se abre
e o nosso irmão menor
indefeso e inocente
depara-se com a imensidão
da crueldade humana.
À sua frente está o homem
exibindo pseudo coragem
e evidente ignorância
sem saber que semeia e aduba
sua futura colheita.
É incompreensível
que por ganância
criaturas se vendam e soneguem
a própria consciência.
Rodeio
tourada
vaquejada
são palavras
carregadas de terror.
Diante de tanta covardia
de tanto primitivismo
meu coração angustiado emerge
de singular perplexidade.
Nessas horas abissais
eu daria minha vida
para acabar com essa maldade
e salvar os animais.


Shirley Brunelli Crestana

15 de agosto de 2015

TEMPO DE ESQUECER


Fecho os olhos
cruzo distâncias
sobre o abismo do peito
e lembranças
 fustigam-me a mente.
Guardo do passado
o som de tempestades
cheias de sementes e de ossos.
Esmago com os pés a solidão
e caminho com passos largos
como se eu tivesse para onde ir...


Shirley Brunelli Crestana